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28.6.09

Quer falar comigo?


SERÁ QUE É ISSO MESMO?

Dor. Se me distraio nem a percebo. Se fico atenta ela me devora. Mastigando aos poucos. Sádica, premeditada, dissimulada. Me enfiei num abraço apertado de uma criatura gigantesca de garras afiadas. Pelo reflexo do espelho posso ver no fundo dos meus olhos negros um avatar de mim mesma amarrado a uma grossa corrente. Onde está a chave do cadeado? Pelo amor de todos os deuses e de anjinhos nus de cachinhos dourados! Será que eu só escrevo quando estou mal? Ou não tão bem? Será a felicidade uma banalidade que não mereça celebração? O ser humano é assim. E eu, apesar de me considerar um degrau acima da maioria das pessoas também sofro dos mesmos males. Minha visão sempre espacial-imparcial de tudo o que acontece aqui no universo (com todos nós) me protege mas me consome. Sofro muito por todos nós, amo muito as pessoas, os animais, a natureza, os objetos... Tenho pena de formiga e me sinto culpada se mato alguma(s). Admiro e me emociono com o mar, incansável mar... Queria que a vida fosse um mp3 player. E ouvir de novo e de novo e de novo... Como a minha preferida do Portishead... Bomba atômica nos meus sentimentos. Ritmo, letra, tudo! Já disse uma vez algo parecido. Música é a coisa mais maravilhosa já criada pelo ser humano. Conexão direta com o passado, com lembranças perdidas no nosso baú empoeirado chamado memória, dentro do nosso amigo Brain. Caro amigo, você é tudo que temos. Sem você funcionando da forma que foi projetado, todos os nossos dilemas e turbulências existenciais não existiriam. Seríamos robôs fazendo o que deveria ser feito. Sem enganos, sem julgamentos, sem traumas, sem drama, sem arrependimentos, sem emoção, sem vida. Porque vida é isso. Vida é erro, acerto, aprendizado, sofrimento. A gente quer só felicidade mas eu sempre acho que a dor faz falta. Eu preciso sofrer de tempos em tempos para me sentir viva! Não acredito que seja nenhum tipo de tendência depressiva... acredito que seja se sentir inserido num contexto que faça algum sentido. Mesmo que este sentido nunca faça sentido pra outra pessoa. A única coisa que importa é o que está dentro de nós. E ao mesmo tempo não vale nada... pois quando morrermos tudo se apaga e ninguém nunca fica sabendo o que você tinha por dentro. Por isso escrevo. Sei que daqui a duzentos anos ninguém lembrará de nós. Assim como literalmente “cagamos e andamos” para nossos antepassados. É preciso tentar perpetuar qualquer coisa. Não falo de descendentes exatamente. Mas de conteúdo. O que há por dentro. O que há por dentro de cada um de nós? A vida é um fósforo aceso. Dentro da redoma, ele se apaga. Fora, corre o risco do vento, chuva ou qualquer coisa interromper antes do final. Porque o final não é onde acaba. O final é pra ser até o fim do fósforo. Por que achamos que o fósforo é pequeno? Será que se fosse maior ainda estaríamos insatisfeitos, sempre reclamando que a vida é curta? Lógico que sim. Nunca estamos satisfeitos com porra nenhuma. Nunca. Sempre achamos que nossas escolhas poderiam ter sido diferentes. Se o cabelo cresce a gente corta. E torce pra crescer de novo e um belo dia voltamos a cortar. Panta Rei! Um brinde às nossas rugas de cada dia. Um brinde aos nossos fios de cabelos brancos que surgem a cada neurônio queimado. Um brinde às nossas lágrimas sempre derramadas sem efeito (porque a gente chora achando que uma força do outro mundo irá nos acudir e nos acalentar ao som da mais bela cantiga de ninar). Um brinde às nossas insatisfações. Um brinde à nossa inquietude. (Porque é isso que faz mover o mundo. Sempre que eu compro coisas demais no shopping eu tenho certeza que estou me fudendo, mas que estou contribuindo com a sociedade, movendo a roda da economia. Não à estagnação!) Um brinde à nossa coragem de abrir os olhos todos os dias e enfrentar a pressa do ponteiro do relógio. É assim mesmo. Tudo sem parágrafo. Como meus pensamentos. Sempre embolados, inacabados, frenéticos...


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